sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

"O coração é como a árvore - onde quiser volta a nascer."

"O Rio das Quatro Luzes" - Mia Couto



Mia Couto (2004). O Fio das Missangas - Contos. Caminho: Lisboa.

"Vendo passar o cortejo fúnebre, o menino falou:
- Mãe: eu também quero ir em caixa daquelas.

A alma da mãe, na mão do miúdo, estremeceu. O menino sentiu esse arrepio, como descarga da alma na corrente do corpo. A mãe puxou-o pelo braço em repreensão.
- Não fale nunca mais isso.
Um esticão enfantizava cada palavra.
- Porquê, mãe? Eu só queria ir a enterrar como aquele falecido.
- Viu? Já está a falar outra vez?
Ele sentiu a angústia em sua mãe já vertida em lágrima. Calou-se, guardado em si. Ainda olhou o desfile com inveja. Ter alguém assim que chore por nós, quanto vale uma tristeza dessas?
À noite, o pai foi visitá-lo na penumbra do quarto. O menino suspeitou: nunca o pai lhe diria um pensamento. O homem avançou uma tosse solene, anunciando a seriedade do assunto. Que a mãe lhe informara sobre seus sortunos comentários no funeral. Que se passava, afinal?
- Eu não quero mais ser criança.
- Como assim?
- Quero envelhecer rápido, pai. Ficar mais velho que o senhor.
Que valia ser criança se lhe faltava a infância? Este mundo não estava para meninices. Porque nos fazem com esta idade, tão pequenos, se a vida aparece sempre adiada para outras idades, outras vidas? Deviam-nos fazer já graúdos, ensinados a sonhar com conta medida. Mesmo o pai passava a vida louvando a sua infância, seu tempo de maravilhas. Se foi para lhe roubar a fonte desse tempo, porque razão o deixaram beber dessa água?
- Meu filho, você tem que gostar de viver, Deus nos deu esse milagre. Faça de conta que é uma prenda, a vida.
Mas ele não gostou nada dessa prenda. Não seria que Deus lhe poderia dar outra, diferente?
- Não diga isso, Deus lhe castiga.
E a conversa não teve mais diálogo. Fechou-se sob ameaça de punição divina.
O menino permanecia em desistência de tudo. Sem nenhum portanto nem consequência. Até que, certa vez, ele decidiu visitar seu avô. Certamente ele o escutaria com maiores paciências.
- Avô, o que é preciso para se ser morto?
- Necessita ficar nu como um búzio.
- Mas eu tanta vez estou nuzinho.
- Tem que ser leve como a lua.
- Mas eu já sou levinho como a ave penugenta.
- Precisa mais: precisa ficar escuro na escuridão.
- Mas eu sou tinto e retinto. Pretinho como sou, até de noite me indistinto do pirilampo avariado.
Então o avô lhe propôs o negócio. As leis do tempo fariam prever que ele fosse retirado primeiro da vida. Pois ele falaria com Deus e requereria mui respeitosamente que se procedesse a uma troca: o miúdo falecesse no lugar do avô.
- A sério, avô? O senhor vai pedir isso por mim?
- Juro, meu filho. Eu amo de mais viver. Vou pedir a Deus.
E ficou combinado e jurado. A partir daí, o menino visitava o avô com ansiedade de capuchinho vermelho. Desejava saber se o velho não estaria atacado de doença, falho no respirar, coração gaguejado. Mas o avô continuava direito e são.
- Tem rezado a Deus, avô? Tem-lhe pedido consoante o combinado?
Que sim, tinha endereçado os ajustados requerimentos. A troca das mortes, o negócio dos finais. Esperava deferimento, ensinado pela paciência. Conselho do avô: ele que, entretanto, fosse menino, distraído nos brincandos. Que, ainda agora, o que ele se lembrava era o mais antigo da sua existência. E lhe contou os lugares secretos de sua infância., mostrou-lhe as grutas junto ao rio, perseguiram borboletas, adivinharam pegadas de bichos. O menino, sem saber, se iniciava nos amplos territórios da infância. Na companhia do avô, o moço se criançava, convertido em menino. A voz antiga era o pátio onde ele se adornava de folguedos. E assim sendo.
Uma certa tarde, o avô visitou a casa dos seus filhos, sentou-se na sala e ordenou que o seu neto saísse. Queria falar, a sós, com os pais da criança. E o velho deu entendimento: criancice é como amor, não se desempenha sozinha. Faltava aos pais serem filhos, juntarem-se miúdos com o miúdo. Faltava aceitarem despir a idade, desobedecerem ao tempo, esquivar-se do corpo e do juízo. Esse é o milagre que um filho oferece - nascemos em outras vidas. E mais nada falou.
- Agora já me vou - disse ele - porque senão ainda adormeço com minhas próprias falas.
- Fique, pai.
- Já assim velho, sou como o cigarro: adormeço na orelha.
Se ergueu e, na soleira, rodou como se tivesse sido assaltado por pedaço de lembrança. Acorreram em aflição. O que se passava? O avô serenou: era apenas cansaço. Os outros insistiram, sugerindo exames.
- O pai vá e descanse com muito cuidado.
- Não é desses cansaços que nos pesam. Ao contrário, agora ando mais celestial que nuvem.
Que aquela fadiga era fala de Deus, mensagem que estava recebendo na silênciosa língua dos céus.
- Estou a ser chamado. Quem sabe, meus filhos, se esta é nossa última vez?
O casal recusou despedir-se. Acompanharam o avô a casa e sentaram-no na cadeira da varanda. Era ali que ele queria repousar. Olhando o rio, lá em baixo. E ali ficou, em silêncio. De repente, ele viu a corrente do rio inverter de direcção.
- Viram? O rio já se virou.
E sorriu. Estivesse confirmado o improvável vaticínio. O velho cedeu as pálpebras. Seu sono ficou sem peso. Antes, ainda murmurou no ouvido do seu filho:
- Diga a meu neto que eu menti. Nunca fiz pedido nenhum a nenhum Deus.
Não houve precisão de mensagem. Longe, na residência do casal, o menino sentiu reverter-se o caudal do tempo. E os seus olhos se intemporaram em duas pedrinhas. No leito do rio se afundaram quatro luzências.
Da feição que fui fazendo, vos contei o motivo do nome deste rio que se abre na minha paisagem, frente à minha varanda. O rio das Quatro Luzes." (pp. 113-117)

domingo, 26 de novembro de 2006

Associação Jovem a Jovem


A AJJ está a organizar uma série de actividades no Vale de Alcântara!
Aqui ficam infos sobre uma dessas actividades!


Quem somos ?
A Associação Jovem a Jovem (AJJ) é uma associação, sem fins lucrativos, que trabalha com e para os jovens desde 1994.

Participolix
Com o Participolix, vamos trabalhar com as crianças e jovens dos 10 aos 15 anos. Todos vão poder participar nas várias actividades que irão decorrer (Visionamentos de filme Ateliers, workshops, jogos em grupo), e ainda trazer as suas ideias para com elas criar outras.

Atitudes
Com o Atitudes vamos trabalhar com os jovens dos 16 aos 21 anos, que não frequentam a escola ou a universidade, para ajudá-los a descobrir a sua profissão, ou, para aqueles que já sabem, arranjar um emprego onde se sintam realizados. Uma vez sabendo o que querem, vão começar
por fazer uma formação nessa profissão, para depois trabalharem e ganharem a sua independência.

Aos Participantes:
Olá!
Nós somos a Associação Jovem a Jovem ( A. J. J. ).
Realizámos uma actividade em Alcântara no dia 16 de Setembro, o "Sábado Tásse Bem", com insufláveis e escalada.
Se não participaste tens agora uma excelente oportunidade para nos conheceres.
Vimos convidar-te para participares num curso Jovem a Jovem, onde te esperam muitas actividades interessantes e divertidas. A estadia, refeições e actividades são gratuitas.
Se quiseres participar e os teus pais estiverem de acordo, pede-lhes para preencherem o convite e entrega-o no GAAF da tua escola.


NOTA: É absolutamente necessária a assinatura do teu encarregado de educação.


Aos Pais:
O curso Jovem a Jovem está inserido no projecto Participolix, um projecto da da A.J.J. em colaboração com a Escola, que começa agora e vai continuar até final de 2008. Vai realizar-se de dia 16 a 20 e Dezembro, fora de Lisboa. A estadia, alimentação e transportes vão ficar a cargo da A.J.J
Este Curso Jovem a Jovem de cidadania é um curso para jovens onde se fala abertamente e se
aprende sobre temas como a tolerãncia, pressão de pares resolução de conflitos, entre outros, de forma a que cada jovem seja capaz de construir um projecto de Vida inserido na sua sociedade. Também se realizarão actividades desportivas para criar estilos de vida suadáveis.
Para qualquer esclarecimento por favor contacte a A.J.J. para os contactos que se encontram no verso deste folheto.

O que fazemos ?
A AJJ desenvolve as suas actividades nas seguintes áreas:

a) Promoção da Saúde, relativa às toxicodependências e à sexualidade, fomentando estilos de
vida e comportamentos saudáveis;
b) Educação para a Cidadania, desenvolvendo o sentido cívico e promovendo o conhecimento e exercício de direitos e deveres de forma a permitir uma integração social;
c) Integração Social, promovendo a formação profissional e o emprego.


Para mais informações dirige-te ao G@@F! Ou contacta directamente a AJJ!

Concurso de Poesia








Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.


Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.


Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.


Sophia de Mello Breyner Andersen
in www.astormentas.com


Um grupo de alunas da Escola está a organizar um Concurso de Poesia.
Fecha os olhos, sente-te, abre os olhos, observa em redor...pensa...
Pega na caneta, no lápis, no teclado...
E assenta os teus poemas.

Vai até ao g@@f e inscreve-te no Concurso!

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Quando o dia não corre mesmo nada bem...

É de manhã bem cedo, são precisamente 8h15! Está a tocar para a primeira aula!
Entras na Escola ainda um pouco sonolento e corres para a sala 12 onde o professor já deve estar à espera para iniciar a aula. Não podes ter falta de atraso! Já tens várias. E o Director de Turma até já se reuniu com a tua Encarregada de Educação para conversarem sobre as faltas! E sobre o teu comportamento, e sobre a tua desatenção...
Já sentado na carteira tiras da mochila o dossier e o livro...bem...onde está o livro? Oh, não acredito! Deixei o livro em casa! Estou sempre a esquecer de tudo! ...
O professor pede para que todos abram na página 24, vão resolver os exercícios 4 e 5.
Tu ficas atrapalhado, tens quase a certeza que o professor já reparou que não trouxeste o livro e mais cedo ou mais tarde vai-te chamar a atenção! E depois vai telefonar à tua mãe, e depois ela vai ter de vir à escola, e depois vais ficar com um castigo ainda maior, e depois ela vai dizer que tu és uma cabeça no ar, que não ligas a nada, que não te interessas, que ela já não tem mão em ti, que já não sabe o que há-de fazer, que o melhor é falar muito a sério com o teu pai, a ver se ele tem mão em ti, que ela já não sabe o que fazer...
E tu não queres que nada disso se repita e pedes à tua colega para partilhar o livro contigo. Mas ela, apesar de ter andado contigo na escola nº6 e já te conhecer, ou por já te conhecer, recusa-se a partilhá-lo contigo.
"Ela já não sabe o que fazer...vai falar com o meu pai..."
Tu mandas um grito na sala e mandas o estojo da tua colega ao chão...
Ela reage, o professor chama a atenção: "O que é que se passa aí? Isso são modos de estar na sala de aula? O teu livro? É sempre a mesma coisa! Vais ter falta de material!"
Tu já estás prestes a explodir...não aguentas mais. Estão todos a olhar para ti. Marque falta se quiser que eu não me importo nada!
Pois não, não te importas...então importas-te com o quê? Não sei o que queres fazer aqui na escola assim!
- E tu sabes que o professor até é "fixe" - até já teve várias conversas comigo das quais gostei, até já foi connosco a um passeio e contou umas anedotas muito giras, até já jogou connosco à bola e até era da minha equipa, e até me passava a bola e até festejou os golos que marquei!
Mas naquele momento só consegues dizer: "Você não é meu pai! Não manda em mim!"
O professor manda-te para a sala 8...vais ter de fazer um texto sobre porque é que a Escola é importante.
Vais contrariado. E zangado.
Tentas fugir para o pátio.
Passas pela porta do g@@f e vais com pressa...em fuga...
"Ela já não sabe o que fazer...vai falar com o meu pai..."
Um funcionário andava à tua procura, leva-te para a sala 8...tu vais a refilar...mas desistes e deixas-te levar...
Escreves sobre a importância da Escola, mas nem sabes bem o que escreves...não te consegues concentrar...
"Ela já não sabe o que fazer...vai falar..."
Então soou a campaínha para a saída.
Pegas na mochila e corres para o pátio.
Jogas à bola com os teus amigos e fazes um golo que todos gabam!
Corres o campo de ponta a ponta, em círculos. Sentes que és o Ronaldinho e que todos te admiram...
E a campaínha soa novamente.
E tu lá vais, meio a sonhar, para outra aula.

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Bom fim de semana!


www.publico.clix.pt/calvin_and_hobbes

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Clube de Xadrez



Hoje o G@@F foi até ao Clube de Xadrez!

Nunca é tarde para aprender a jogar!

Não percas a oportunidade de entrar no mundo dos reis, das torres, das rainhas, dos cavalos e dos peões!

O Clube, como muitos sabem, funciona às 5ª feiras, das 13h45 às 14h30, dinamizado pelo Prof. José Martins.

Está a chegar o tempo de frio e/ou de chuva que convida exactamente a um abrigo perto do ginásio, com parceiros de jogo, conversa e também muita concentração nas jogadas!

Aparece por lá!

Greve...umas ideias...


Alguns alunos da escola fizeram "greve"...não foram às aulas e ficaram em frente à escola!
Mas será que o que fizeram foi mesmo "greve"?
E se sim...será que sabem mesmo porque fizeram?

Aqui ficam algumas ideias...
Greve é a cessação coletiva e voluntária do trabalho, decidida por trabalhadores assalariados de modo a obter benefícios, como aumento de salário, melhoria de condições de trabalho ou direitos trabalhistas, ou para evitar a perda de benefícios. por extensão, pode referir-se à cessação coletiva e voluntária de quaisquer actividades, remuneradas ou não, para protestar contra algo.

A palavra origina-se do
francês grève, com o mesmo sentido, proveniente da Place de Grève, em Paris, na margem do Sena, outrora lugar de embarque e desembarque de navios. O termo grève significa originalmente "terreno plano composto de cascalho ou areia à margem do mar ou do rio".
  • Há várias formas de greve:
    greve branca: mera paralisação de actividades, desacompanhada de represálias;
    greve de braços cruzados: paralisação de actividades, com o grevista presente no lugar de trabalho, postado em frente à sua máquina, sem trabalhar;
    greve de fome: o grevista recusa-se a alimentar-se para chamar a atenção das autoridades para suas reivindicações;
    greve selvagem: iniciada e/ou levada adiante espontaneamente, pelos trabalhadores, sem a participação ou à revelia do
    sindicato que representa a classe.